Liberdade e Responsabilidade

Por Ana Paula Aquilino – Psicóloga – CRPSP 20694 – Parceira Conquistah Consultoria Psicológica

O que é liberdade para você? 

Se você estivesse sozinho numa ilha, considera que seria uma pessoa livre? 

Liberdade significa fazer tudo que você tem vontade, a hora quiser, do jeito que quiser, onde quer que esteja?

Qual a diferença entre a liberdade que nós, seres humanos, podemos ter e a liberdade que animais que vivem na natureza têm?

Se compararmos a nossa liberdade com a dos animais, mesmo os mais selvagens que vivem “livres” na natureza, vamos encontrar alguns aspectos interessantes: os animais selvagens são livres, mas estão limitados à preservação de sua espécie, à sua sobrevivência a qualquer custo, seguindo seus instintos para garantir sua continuidade. 

Já os animais menos selvagens e, mesmo os mais domesticados e amados por nós, têm a capacidade de construir fortes vínculos afetivos, cuidando de seus cuidadores e sendo cuidados em sua segurança e sobrevivência. Seus instintos fazem com que ajam de forma a preservar esses vínculos e, expressar sua afetividade faz parte dessa preservação.

Voltemos ao Ser Humano. Não podemos negar que os dois níveis de liberdade citados acima estejam presentes para nós, algumas vezes mais presentes do que em outras, dependendo da situação. 

Mas somos muito mais do que isso!

Diferentes linhas da Psicologia definem o Ser Humano de diferentes maneiras, sob pontos de vista bem diversos. Quero desenvolver, neste momento, uma específica, que é a da Análise Existencial ou Logoterapia. 

Não vou aqui compará-la com outras linhas. Quero apenas expor pontos que considero de muita relevância para o olhar sobre o que significa ser um ser humano na linha da Logoterapia, com a qual mais me identifico. 

Por essa vertente de pensamento, o ser humano é o único ser vivente que escolhe o que quer, apesar das heranças e definições biológicas, apesar dos instintos e do mundo circundante.  

Cada uma dessas instâncias influência naquilo que cada um de nós é, mas nenhuma delas ou mesmo todas juntas não nos definem. 

Porque há algo mais como característica única do ser humano: só nós podemos e precisamos refletir sobre nossa existência. É algo específico da humanidade, independente da cultura, das condições físicas, sociais e culturais. Buscamos sentido para nossa vida e para tudo que fazemos. 

Se temos a capacidade e possibilidade de escolha, apesar de tudo que nos limita (e, como vimos, mesmo os animais selvagens em liberdade, tem limitações e não têm essa possibilidade), a capacidade de escolha representa a essência de nossa liberdade. Somos diferentes de outros seres viventes por causa disso.

E que escolhas costumamos fazer? Com base em que? Como se expressa nossa liberdade? 

Se pensarmos em liberdade como a possibilidade de fazer o quisermos, como, onde e da maneira que quisermos, podemos cair numa visão onipotente, egocêntrica e narcisista do ser humano. Mas, embora existam alguns assim, sabemos que a convivência fica muito difícil e essas pessoas acabam não se relacionando de forma saudável. Não é saudável nem para elas nem para quem convive com elas.  

Chegamos agora, num outro ponto muito importante: nós, seres humanos, fazemos mais do que viver. Nós CONvivemos, por mais isolados que alguns se mantenham ou sejam mantidos. Então, para mantermos nossa condição humana, temos uma delimitação em nossa liberdade. 

Assim, as perguntas, agora, são: liberdade de quê e em relação a quê ou a quem? Porque se convivo, sou responsável pelo que acontece comigo, com as pessoas que me cercam e com o meu ambiente. 

Por isso, nossa liberdade é sempre relativa, condicional, finita. Está, sempre, sob restrições morais ligadas à responsabilidade das consequências geradas por sua utilização. A liberdade será, indiscutivelmente, moderada/ mediada, pela responsabilidade, sob risco de marginalização.

Aí você pode comentar: é por isso que eu gostaria de viver numa ilha deserta! 

Seria maravilhoso, mas o ser humano é um ser intrinsicamente social. A solidão não resolve seus dilemas!

Houve um fato muito interessante que aconteceu anos atrás, quando um aluno perguntou à antropóloga Margaret Mead sobre o primeiro sinal de civilização em uma cultura. A resposta inesperada – esperava-se algo como alguma ferramenta, algum artefato religioso – trouxe o fato surpreendente de um fêmur fraturado e curado de 15.000 anos encontrado em um sítio arqueológico. Com a medicina atual, a cicatrização total desse osso leva cerca de seis meses. No período a que pertencia esse osso, o indivíduo teria sido abandonado, pois seus contemporâneos não tinham como saber o que fazer nessa situação, sem se colocarem em risco. Nunca havia sido encontrado um osso curado, com sinais de sobrevida até então. Mas este osso em particular foi quebrado e curado. Alguém cuidou, alimentou, protegeu e lidou com a dor do dono desse osso, que acabou por se curar, sabe-se lá após quanto tempo. Tudo isso resulta no entendimento de que alguém assumiu a responsabilidade por aquela pessoa. Primeiro sinal de civilização em uma cultura!

Voltemos ao presente, mas levando em consideração a importante informação acima, que vêm lá dos primeiros seres humanos civilizados. Olhemos para o seguinte ponto de vista: as pessoas não só se encontram colocadas em face do mundo – interior/exterior, biológico/ambiental – como também se posicionam em relação a tudo isso. 

O trilho para esse posicionamento é a sua consciência moral, são os seus valores, construídos ao longo de suas histórias individuais, mas que estão indiscutivelmente inseridos num contexto mais amplo, ou seja, relacionados e relativizados pela convivência nos diversos grupos dos quais faz parte – os micro (familiares, escola, trabalho etc.), e o macro (sociedade como um todo). 

As pessoas não estão livres de certas condições, mas são livres para se posicionar diante delas. 

Assim, o ser humano é livre para responder às situações e responsável pelas consequências advindas dessa resposta.

Em nossa civilização atual, qualquer que seja o país, o continente, a sociedade, só há liberdade se vinculada à responsabilidade. O que sai disso, traz consequências dramáticas para o planeta e toda a sua população. A desvinculação entre esses dois fatores dá origem à onipotência, à arbitrariedade, a desmandos e escravização. Existe muito ainda? Com certeza! 

Mas, sem dúvida, representam uma violação da definição de Ser Humano, seja em que tipo de relação for! 

E você, se considera livre? Em relação a que e a quem você se vê responsável nas escolhas que faz? 

Pense bem!

Sempre teremos escolha!

Empatia, você tem?

Você se considera uma pessoa empática? Será que você sabe o que é empatia? A clássica resposta “colocar-se no lugar do outro” deve ser prolongada por alguns parágrafos. É muito comum ouvirmos as pessoas falarem que sabem o que é e que têm muita empatia, pois vivem se preocupando em como ajudar nas diversas situações e relações de suas vidas. Vamos ver se isso é realmente verdade.

Para entendermos o significado, vamos olhar, primeiramente, para a palavra em si. Ela vem do grego e tem como sufixo a palavra “PATHÓS”, que traduzimos como doença ou sofrimento – o nosso e o do outro. É preciso levar em consideração, sempre, que o sofrimento é inerente à existência humana. Não há quem não passe por momentos ou períodos de alguma dor. A partir desse conceito, temos, na Língua Portuguesa, algumas derivadas: antipatia, apatia, simpatia e empatia.
 

Podemos dizer que essas palavras falam do grau do nosso envolvimento com o sofrimento do outro, ou do nosso sofrimento com base no do outro. Assim temos os seguintes adjetivos para identificar a capacidade de alguém nessa direção:

ANTIPÁTICO(A): é aquele que tem o olhar “contra a dor”. Não no sentido de lutar contra ela para melhorar a própria vida ou a da outra pessoa, mas sim no de não deixar essa dor incomodar. Assim, se o sofrimento alheio lhe atrapalhou o dia, mostra irritação e distanciamento porque perdeu alguns minutos do seu tempo. Não importa o quão aguda seja a dor alheia. Nem a própria. A questão aqui é não entrar em contato com nenhuma dor. Isso dá a essa pessoa aquele ar de distanciamento e arrogância tão comum quando usamos o adjetivo “antipático(a)”.
 

APÁTICO(A): é aquele que vê a dor, mas nada manifesta. É inerte a qualquer sentimento. Não há mobilização por um socorro. É capaz de permanecer frio diante da maior tragédia, impassível frente a qualquer lágrima derramada. Sobre esses dois primeiros: não significa que não sofram, mas que não demonstram ou negam tanto para os outros quanto para si mesmos, que isso está acontecendo.

SIMPÁTICO(A): É a pessoa que sente a dor do outro, mas não se envolve realmente para minimizá-la. É o olhar social para dor, aquilo que podemos chamar de ‘pena’ ou ‘dó’. Um conhecimento longínquo sobre o que o outro sente. Assim, temos simpatizantes de diversas causas, por exemplo. Talvez com doações. E temos os likes nas redes sociais, a uma distância que não permite aprofundamento ou contato real com o outro, o fato ou a questão discutida.
 

EMPÁTICO(A): é quem consegue “sentir junto”, como se a dor do outro fosse sua. Como a dor do outro também dói nele, faz de tudo para conseguir ajudar, para conseguir resolver o que quer que seja e que esteja ao seu alcance para parar a dor, diminui-la, amenizá-la ou interrompê-la.

Percebe que, nas definições acima, a proximidade com o sofrimento e o sofredor vai aumentando gradativamente? Vale ressaltar aqui, que estas diferenças entre os conceitos que coloquei até aqui são apenas referências para o entendimento e nem sempre há uma delimitação tão clara na atitude das pessoas.
  

E nem sempre as pessoas se manifestam da mesma forma com diferentes pessoas e tipos de sofrimento. De qualquer maneira, quando chegamos na empatia, não só estamos próximos ao sofrimento e ao sofredor, como tomamos uma ação para lidar, de alguma forma com a situação que o origina.

 Então, a primeira pergunta foi: você acha que tem empatia? Vou querer saber sua resposta no final do texto, uma vez que vou fazer outras, até chegarmos lá, para que você possa construir sua visão a respeito de si mesmo(a) em relação a isso
 
 A segunda pergunta foi: Você sabe o que é empatia? Talvez agora, depois de examinarmos melhor o termo, você consiga entender melhor, para poder responder à primeira pergunta. Mas vou-me aprofundar um pouco mais naquela definição inicial. Se, na empatia, a dor do outro dói em mim, é porque me conectei com essa dor. Ter a condição de me conectar à dor de alguém, não significa sentir a mesma dor.
 
 Eu busco dentro de mim algum processo de sofrimento que já passei e me identifico com a outra pessoa, independentemente do tipo de sofrimento. Desta forma, consigo me conectar à pessoa e à sua dor.
 
Dor é dor e sofrimento é sofrimento. São estados pelos quais todos nós passamos em algum momento da vida, cada um em seu contexto e em sua intensidade. Cada um lida com esse estado do seu jeito, segundo seus recursos internos, seus recursos financeiros, valores familiares, cultura, religião, história passada e presente, sua perspectiva de futuro. Portanto, a definição de empatia, levando-se em consideração que teremos alguma ação na direção de minimizar a dor do outro, será: “capacidade de se colocar no lugar do outro E tentar realmente compreender um ponto de vista diferente do seu”.
 

Caso contrário, as soluções que vamos propor podem não diminuir o sofrimento e ainda, ao contrário, fazer com que o outro se sinta pior, por não ter os recursos internos e/ou externos (que nós propusemos) para lidar com essa dor; ou por enxergar nossas soluções como algo que vai contra sua visão de vida e valores morais. Em ambos os casos, o que fica é a nítida sensação de estar sendo julgado por quem ofereceu a solução tão lógica e fácil (para quem ofereceu)! Isso é empatia?

É preciso parar de olhar para nós mesmos, enxergando o que nós faríamos no lugar dessa pessoa, e olharmos para ela com interesse, curiosidade, compreensão e conexão, respeitando-a e valorizando-a. É preciso ter em mente o que o outro faria. E, talvez, ele não fizesse realmente nada. Talvez ele não queira uma solução. Talvez essa pessoa só queira se ouvir falando, para se organizar e, só então, encontrar o próprio caminho.
 

Por isso, na empatia, nem sempre uma resposta ou uma solução são a atitude que ajuda no momento da conexão. Mas um abraço, a afirmação de que está junto para o que a pessoa precisar ou “nem sei o que te dizer, mas estou aqui”, ajudam mais do que agir de forma desenfreada, agindo no lugar da pessoa ou propondo caminhos impossíveis para ela. Isso só reforça a sensação de impotência que ela pode estar sentindo naquele momento.

Você consegue fazer isso? Apenas abraçar? Apenas ouvir? E, se for para propor solução, fazê-lo sem o sentido de que essa é a verdade e o caminho, levando em consideração o que a pessoa tem condições reais de fazer? Buscar conhecer e respeitar os valores, as crenças e toda a condição de ação da pessoa por quem nos sentimos empatizados, ou seja, conectados pela dor?
 

Pense bem!

O tema é bem complexo e daria para ficar escrevendo e escrevendo sobre o assunto. Mas agora, quero falar apenas sobre mais dois aspectos muito importantes no que diz respeito à empatia.
 

O primeiro é que, pela origem da palavra empatia, em geral associamos somente ao sofrimento do outro, exatamente como foi desenvolvido até aqui. Porém, colocar-se no lugar do outro, respeitando seu ponto de vista, pode ser aplicado, também, às alegrias da outra pessoa, às suas conquistas. Posso perfeitamente ficar feliz com, pelo e junto com o outro. E essa capacidade é muito, muito importante, entendendo-se que, igualmente, nem todo mundo tem essa capacidade. Você tem?

O outro aspecto importantíssimo quando se fala sobre empatia, é questionar se você tem capacidade de senti-la em relação a si mesmo. A autoempatia acontece quando deixo de ser perfeccionista e autoexigente; quando minha autoestima está equilibrada e consigo gostar do que fiz/consegui e quando admito que, se não fiz/consegui, houve obstáculos reais que não me permitiram chegar a isso. Sem crítica, sem me castigar, sem me culpar. E essa, você consegue?
 
E então? Volto a perguntar: você se considera empático(a)?
 

A boa notícia é que, quem não nasce com essa capacidade tem possibilidade de desenvolvê-la. Por decisão, por escolha. Aprender a olhar o outro com interesse, curiosidade, compreensão e conexão, respeitando-o e valorizando-o exige vontade de fazer isso, exige desprender-se da vaidade de achar que, se fosse você, faria tudo diferente. Você já entendeu que faria mesmo, não é? Afinal, você é outra pessoa e tem toda uma história diferente, que te dá condições de fazê-lo diferente.

Você se propõe a isso? A decisão é sua! Sempre só sua!
 
Ana Paula Aquilino – Psicóloga CRPSP 20694
 

Parceira ConQuistaH Consultoria Psicológica